Artistas das palavras

Artistas das Palavras – Antony Magalhães

Bem vindos ao segundo capítulo da série “Artistas das palavras”! Hoje apresento a vocês um jovem autor de personalidade forte e com bagagem dentro da literatura. Com vocês, Antony Magalhães!

Antony Magalhães

“Literatura é arte, e arte é transgressão”

Antony Magalhães
Antony Magalhães

 

Começando pelos quadrinhos da Turma da Mônica (quem nunca?), passando pelos mangás de Dragon Ball, chegando aos livros cada vez maiores. Assim formou-se o leitor Antony Magalhães. Nascido na cidade de Dourados, o sul-mato-grossense de apenas 23 anos lembra bem dos seus grandes desejos quando ainda era criança. “Desde pequeno eu dizia que queria ser escritor e jornalista quando crescesse. Acabou que isso deixou de ser um sonho pra ser uma meta. Eu não tinha um plano B”.

Começou a colocar as primeiras palavras no papel aos 14 anos, quando já saía dizendo que era escritor, mesmo publicando o primeiro livro aos 21. O apoio da mãe, que nunca duvidou da capacidade do filho e que comprava os gibis que Antony lia, foi fundamental para que o sonho tomasse proporções cada vez maiores.

Apreciador das obras de Marcelo Rubens Paiva, Gillian Flynn e Agatha Christie, Antony publicou em 2013 a obra “Wark: O livro da vida”, pela editora Multifoco. Até então, sentia dificuldade quando precisava se definir como escritor. “As pessoas não levam você a sério. Comecei a escrever cedo, então ninguém dava atenção pra um moleque de 14 anos que diz que é escritor. As coisas só começaram a mudar quando publiquei meu primeiro livro”.

Opiniões fortes e humildade

O também jornalista defende que a auto publicação digital é uma porta de entrada para os escritores iniciantes, mas apenas para os que não são acomodados. Para o autor, não adianta escrever um livro de qualidade e nunca divulgar. Além de escrever bem, é preciso vender bem, entender um pouco de marketing e estar sempre antenado. Ele já publicou nas plataformas digitais os romances “Éden: Morte no paraíso” em 2015 e “As palavras que ninguém mais diz”, em 2016.

O contato com outros escritores desde o início da carreira é importante na trajetória do autor. Mas para ganhar cada vez mais espaço no mercado editorial brasileiro, Antony coloca uma palavra importantíssima para todos aqueles que almejam seguir os seus passos. “Humildade. Seu livro não é o melhor. Você não é o melhor. É preciso entender que há lugar pra todo mundo. Há diversas formas de se destacar e é bom ser conhecido pelos motivos certos”.

Ao falar sobre o papel que os jovens escritores possuem atualmente, Antony não consegue enxergar na maioria deles o desejo de estar sempre melhorando. “Ficaria feliz em dizer que eles são transgressores, que dizem o que ninguém mais diz e enfiam o dedo na ferida. Infelizmente não é o que acontece. Há ótimos jovens escritores, mas a maioria escreve mais do mesmo. Literatura é arte e arte é transgressão”.

Aqui é trabalho!
Anacrônico
Capa do livro “Anacrônico” – Luva Editora, 2017

Anacrônico” é o seu livro mais recente, lançado em 2017 pela Luva Editora. O livro mostra um Brasil devastado por grandes guerras, onde a escravidão retornou ao país e as pessoas passaram a viver em cidades tecnológicas. Para criar esse mundo alternativo, Antony juntou cinco ideias que tinha para 5 livros diferentes, que no fim resultaram em uma só trama. O universo se expandiu tanto durante o trabalho de escrita que o autor já prepara a continuação, “Diacrônico”.

Assim como consegue manter a leitura de livros diferentes ao mesmo tempo, Antony também consegue conciliar trabalhos paralelos. Agora está em andamento com o romance LGBT “Pregos pelo chão”, que narra o início do relacionamento de um casal com uma pessoa que é HIV positiva e outra que é HIV negativa, e também com a space operaEstarei viva se o mundo acabar”.

Depois de realizar os sonhos de infância, agora Antony foca no mais simples e mantém os pés no chão. “Só quero ser lido. Quero que meus livros possam encorajar ou mudar pessoas. Sabe quando alguém diz que um livro mudou a vida dela? Então.. É meu sonho dentro da literatura”.

 

Por J. S. Rodrigues

Revisão de Patrícia Neves

 

Para saber mais sobre Antony Magalhães e suas obras, acompanhe o autor pelo facebook e leia os 5 primeiros capítulos de Anacrônico disponíveis no Wattpad. Curta Eu em Páginas para acompanhar os próximos perfis, poemas e contos. E não esqueçam de compartilhar para que mais pessoas possam conhecer o trabalho desses grandes artistas. Até a próxima!

Poesias

Despedida

Me chamo Despedida
mas também posso ser adeus
se nunca mais voltar a ver.

Posso ser até logo
ou até mais ver
se a intenção é voltar
a ficar junto outra vez.

Posso ser só um tchau
se não tiver mais nada a dizer.
E que tal até amanhã
quando chega a hora de sair.

Mas não gosto quando me usam
só para demitir alguém.
“Você está despedida!”
Isso machuca, sabia?

O mais importante
é que mexo com sentimentos
e com os pensamentos.

E quase sempre fico juntinha
da minha melhor amiga
a tal da Saudade.

Artistas das palavras

Artistas das palavras – Fred Caju

Sejam todos bem vindos ao primeiro capítulo da série “Artistas das palavras”! Neste espaço trarei vários perfis de pessoas que fazem das palavras o combustível para criar sua arte: Os escritores. Independentes, publicados por editoras grandes e pequenas, ainda não publicados. Personagens que estarão no Eu em Páginas. E para começar, apresento a vocês Fred Caju.

Fred Caju

“Poesia tá muito mais em como você escuta, como você vê o mundo”

Fred Caju

Ednaldo Francisco do Carmo Junior. Das iniciais, surgiu o anagrama: Fred Caju. E daí surgiu a arte. “Quando alguém chorou depois de ler uma mentira que escrevi, vi que deveria ter responsabilidade com a palavra escrita e que minha capacidade de criação poderia convencer e emocionar as pessoas”.

Inspirado inicialmente por João Cabral de Melo Neto, o poeta recifense, mas que hoje vive em Paulista, sempre teve o apoio da família quando decidiu viver das palavras, o que foi fundamental para começar e manter sua arte. Sempre com excelentes notas no boletim, nem por isso foi cobrado a ter uma profissão de alta remuneração. “Eu nunca ouvi um vai trabalhar”. Mas quando fala sobre o primeiro contato e o início do amor pela literatura, Caju sente dificuldade, até porque só tinha livros didáticos em casa, e ninguém da família tinha a assiduidade da leitura. “Acho que em algum momento eu devo ter recusado participar de alguma pelada, e ao invés de jogar bola fiquei sem fazer nada e foi bom. Pode ter sido esse meu primeiro contato com a poesia”.

Muitas formas de fazer e um fazer de muitas formas

Sabendo qual leitor quer atingir, Caju sempre recorre às publicações independentes. Desde a criação da obra, até a confecção, distribuição e venda, tudo passa pelas mãos do autor. Para ele, vale a pena ser responsável por toda essa cadeia. “Meu prazer não é só com o texto literário, tenho tara nas tipografias, papéis, maquinários gráficos e de dar a cara à tapa para contrabalancear minha timidez na vida pessoal”. Essa timidez inclusive foi o que despertou no autor a chama para ciar sua própria editora, a Castanha Mecânica, que surgiu de uma necessidade orgânica de escoar o que produzia.

Com o tempo e a curiosidade, começou a se apropriar das ferramentas de edição de texto e de linguagem html. Se antes existia a vergonha de incomodar as pessoas mostrando poema avulso o tempo inteiro, agora, com a Castanha Mecânica, Caju começou a aparecer numa plataforma livre com seus livros e também de pessoas próximas que escreviam em formato de ebook.

Dentro do mercado tradicional, seria difícil atingir seu público de maneira eficiente. Já imaginaram alguma editora produzindo um livro que tivesse material orgânico nele? Pois é, seria impossível. Mas Caju mostrou com seu último livro, intitulado de “Estilhaços”, que na verdade não é. “Utilizei cascas de ovos na capa para que o leitor tivesse que manter o livro em movimentação, fora das estantes. Afinal é um fator orgânico potencialmente perigoso para a conservação”.

Produção da capa do livro “Estilhaços”
As ideias do escritor independente

Repensar e reinventar o lugar do livro é uma obsessão para Caju. Os seus ebooks podem ser encontrados nas plataformas digitais, mas seus livros físicos ficam todos sob suas costas. Tudo para fugir das taxações absurdas das livrarias e para manter sua ideia de publicação. “Estou sempre brincando que para comprar um livro analógico meu, tem que no mínimo me olhar nos olhos”.

Sempre ativo e participativo nos diversos encontros e eventos relacionados a literatura e a publicação independente, Caju não se preocupa em passar imagem alguma para os leitores ou escritores. O foco é aprender e conhecer mais editores, autores, leitores e livreiros. Entender os problemas que enfrenta e ouvir dificuldades que os outros também possuem. Compartilhar e somar.

Todo escritor sabe qual seu grande sonho dentro da literatura, ou qual lugar pretende alcançar. Mas o pensamento de Caju é um pouco diferente. “Acho que se eu soubesse perderia toda a graça dessa minha aventura e já teria desistido. E eu quero mesmo é que elas cheguem sem mim. Antes de publicar, armo elas e solto no mundo. O autor é o menos importante nisso tudo”.

Por J. S. Rodrigues

Perfil produzido na disciplina Jornalismo Impresso II sob a orientação da professora Ada Guedes – UEPB

Para saber mais sobre Fred Caju e suas obras, acesse fredcaju.blogspot.com.br, e acompanhe também a editora Castanha Mecânica pelo facebook. Curta Eu em Páginas para acompanhar os próximos perfis, poemas e contos. E não esqueçam de compartilhar para que mais pessoas possam conhecer o trabalho desses grandes artistas. Até a próxima!

Poesias

BR

O problema do Brasil é a saúde.
Pessoas sofrem todos os dias
nas filas dos hospitais
esperando por um milagre.

O problema do Brasil é a segurança.
Pessoas sofrem todos os dias
nas filas das lotéricas
esperando não precisar de um milagre

O problema do Brasil é a educação.
Pessoas sofrem todos os dias
nas filas dos sines
rezando por um milagre.

O problema do Brasil é a política.
Pessoas sofrem quase todos os anos
nas filas das urnas eleitorais
sabendo que só mesmo um milagre!

O problema do Brasil é o meu poema.
Que só fala em problema!
Por que não fala as soluções?
Porque ninguém quer olhar essas questões!

O circo está armado.
Estamos de olhos fechados
jogando a culpa de um lado para o outro.
O problema do Brasil é o meu poema.

 

J.S. Rodrigues

Contos

O Som do Fim

Ele não sabia o que deu errado. Mas corria por entre os becos escuros. E chovia. E ele chorava. Estava desesperado. Só pensava em fugir. Ouvir o barulho da chuva batendo nos telhados de madeira das casas o assustava. Ouvir seus passos nas possas de água formadas na terra também o assustava. Assim como qualquer luz que lembrasse fogo. Mas fora o medo, apenas uma coisa passava pela sua cabeça. Tudo tinha chegado ao fim.

Tinha sido um bom menino. Se tornou um bom homem. E depois um bom xerife. Quem sabe, também seria um bom pai. Cresceu em uma família importante. Filho do médico da região, sempre soube o queria fazer da vida. Assim que viu um pequeno cachorro sendo maltratado já tinha decidido que queria acabar com os homens maus. Depois que casou, foi em busca do seu sonho.

Agora ele não é nada. Rompeu sua alma. Duas vezes. Acabou com a sua vida. Acabou com a vida dela. E acabou com a vida de quem ainda não sabia o que era viver.

Mas a culpa não foi dele. Era o que achava. Pobre homem. Cuidadoso. Calmo. Discreto. Mas também determinado. Corajoso. Decidido. Mas ela não entendia seu trabalho. Ela não entendia o que ele era. E nem o que ele fazia. Ela tinha medo. Tinha medo por ele. Não queria perde-lo. Não queria nem que isso passasse por sua cabeça. Todos sabiam disso.

O mundo é perigoso. O mundo é cruel. Era um bom homem. Merecia ter paz. Ofereceram segurança a ele. Ofereceram essa paz. Em troca, largaria seu manto. Deixaria seu distintivo para outro. Seu trabalho chegaria ao fim. Mas claro que ele não aceitou. Claro que não é fácil abandonar uma vida de servidão e da qual gosta. Da qual faz parte de si. Ele simplesmente não quis.

Ela não gostou nada. Ela insistiu. Ela implorou. Falou que era importante. Falou que o certo seria estarem juntos sempre. O homem calmo perdia a calma. E saia.

Até que voltou uma noite, depois do seu trabalho, e a viu se preparando para partir. Disse que o deixaria. Disse que voltaria a viver com seus pais. Ele não entendia. Ele nunca entende. Então gritavam um com o outro. E todos que passavam poderiam ouvir. Ele deixou a arma na sua cama. Não lembrou que estava pronta para o disparo. Culpa da perseguição feita hoje a um ladrão, que assaltou o bar próximo ao centro.

Ela se sentou na cama, chorando por estar discutindo. E então a arma disparou. Atingiu sua barriga e ela caiu no chão do quarto. Ele vai desesperado para socorrê-la. Mas apenas escuta as últimas palavras dela. “Eu estava grávida. Tive medo de te dizer. Queria… cof cof cof… que você abandonasse tudo e cuidasse de mim. Mas também não queria… não queria… – ela vai apagando aos poucos – não queria que eu fosse a responsável por acabar com seus sonhos… seria um bebê… bebê… lindo.”

Agora ele corre. Foge. Mas sabe que uma multidão ouviu o som. Sabe o que farão com ele. Lágrimas mexem com a batida do coração dele. Ele para. Treme de ansiedade. Pelo que está por vir. Então grita. Incansavelmente. Não quer mais fugir.

As luzes se aproximam. Tochas que queimam em plena chuva. Uma obra de arte para ele. É o que ainda pode contemplar nos últimos instantes. Então senta. E diz em voz alta “Desculpa”. O que se ouve depois é o mesmo som ouvido em sua casa. Só que várias vezes seguidas.

Tudo acabou aqui. Porque tem coisas que não se perdoam.

Mas ele era um homem bom…

 

Poesias

Sonho

Quando pequeno, tinha um sonho
Um sonho de voar
Um sonho de viajar
De ser pequeno, e depois ser grande
De ser mais velho
De viver pra sempre
Era um sonho de criar
Mas era só um sonho

Agora que sou quase adulto
Guardei meu sonho
Tinha esquecido
Perdi de vista
Lembrava as vezes
Mas nunca segurava

Para enxergá-lo novamente
Olhei para dentro
E voltei a sentir o sonho

Peguei nas minhas mãos com cuidado
E jurei ao céu, do dia e da noite
Que acredito nele novamente

Hoje não sonho mais
Hoje sei o amanhã
Hoje, eu escrevo.